quarta-feira, 21 de abril de 2010

Quando a xícara de chá foi ao chão

Quando a xícara de chá foi ao chão, nem todos se viraram imediatamente para olhar.
Ricardo, o filho mais velho de Seu Gregório, entrava na cozinha no exato momento em que seu pai tentava pegar a xícara de chá com suas mãos trêmulas.

Ricardo pôde ver quando as velhas mãos perderam-se da xícara, deixando-a cair, banhando todo o piso. O barulho da louça quebrando, se espatifando no piso da cozinha, interrompeu a animada conversa entre Dna Yara e Tamiris, esposa e filha de Seu Gregório.

Elas pararam e olharam, primeiro para o chão molhado e salpicado pela louça, depois para o velho homem sentado no banquinho branco da cozinha com os braços soltos sobre os joelhos e o rosto voltado para o chão. Ainda com a sobra de um sorriso no rosto, elas ficaram olhando para ele por um tempo que pareceu ser uma eternidade e que, provavelmente, não demorou mais que alguns segundos.

Seu Gregório olhava para o chá esparramado no chão da cozinha e seus olhos boiavam entre as lágrimas que queriam mas ainda não haviam decidido cair e se juntar ao chá.

Antes que a irreversibilidade da situação comprometesse a todos, Ricardo abriu caminho entre a delicadeza e a surpresa e procurou amparar o pai:
- Pai! Essa xícara vive escorregando da minha mão também! Vamos para a sala ver o que está passando na televisão!

Falando isso, Ricardo segurou seu pai pelos ombros e o fez levantar. Enquanto caminhavam pela cozinha, virou-se para a irmã Tamiris e falou de maneira propositalmente despretensiosa:
- Maninha! Você poderia começar a limpar essa bagunça? Eu já volto para te ajudar! - A complementação para o final da frase foi uma piscadela disfarçada, selando um pacto de cumplicidade.

Ninguém admitia que a falta de destreza era um anúncio inevitável do peso dos anos. Seu Gregório, por seu turno, fazia de tudo para demonstrar exatamente o contrário. O golpe mais duro, contudo, não seria o chá no chão ou a xícara despedaçada, seria, sim, ver as lágrimas indeterminadas, justificadas, que Seu Gregório quase não conseguiu bloquear.

A instantâneidade do evento, a ação esperada mas mesmo assim surpreendente do peso da idade, a fragilidade e efemeridade da vida, tudo isso junto, de repente, resumiu-se naquela xícara que alçou vôo e mirou direto para o chão.

Seu Gregório, do alto de seus quase 80 anos, viu-se, de repente, frente a frente com o ônus da idade.

- Acho que nosso time joga hoje!! - O pai falou para o filho enquanto cruzavam a cozinha e os olhares das mulheres. - Faz tempo que não vemos um jogo juntos.
A segunda frase foi dita em meio a um início de sorriso confiante nascendo nos lábios do velho homem.

A idade tem seus ônus, é verdade, mas tem seus bônus também. Seu Gregório entendeu e atendeu ao apoio imediato do filho Ricardo.
- Pai! Espera um pouquinho enquanto ajudo a Tamiris e a mãe lá na cozinha!!!  Ricardo falou enquanto se levantava.

O filho caminhou até a cozinha cruzando a sala a passos largos, heróicos e confiantes. O velho acompanhou o filho com os olhos orgulhosos e cheios de ternura e não se surpreendeu quando o viu voltando, algum tempo depois, abraçado à mãe e à irmã. Desviou rapidamente o olhar e voltou-se para a televisão mantendo aquele ar solene de quem está no controle da situação.

- Como está o jogo, Pai? - Perguntou a filha Tamiris, fingindo não ter percebido a fragilidade do momento.
Antes que o velho homem respondesse, todos já haviam se apertado ao seu redor.

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