quarta-feira, 21 de abril de 2010

Diiinn, Dóóónn! ! !

Eram tempos de dinheiro curto. Seu pulso era firme no controle das despesas e ele fazia questão de manter a austeridade mesmo na compra dos presentes de Natal para a família. Em sua lógica, se o dinheiro era curto, as rédeas deveriam ser curtas também.

Naquele ano, nem o Natal escaparia. Decidiu e conseguiu fazer com que sua mulher concordasse com ele: as compras de presente de Natal estariam limitadas apenas ao presente do filho.

Nada de presente de Natal para as tias, sobrinhas, filhos de vizinhos e etc, etc, etc. Naquele ano, só o filho e, mesmo assim, o presente dele ainda teria que ser alguma coisa na base da lembrancinha.

Nem ele, nem a esposa conseguiam chegar num consenso a respeito da lembrancinha do filho. À medida que o Natal se aproximava, aumentava a dúvida e o aperto no coração dos dois.

E, assim, eles conseguiram resistir heroicamente até a véspera do Natal quando, de repente, um lampejo de última hora o fez mudar de idéia: ele iria encontrar alguma coisa melhor que uma “lembrancinha” para o menino.

- É incrível o que um garoto de oito anos é capaz de fazer, não é mesmo?  Pensou consigo.

Com o apoio da esposa, decidiram que iriam comprar uma bicicleta nova para o menino. Naquele momento, o que havia restado de austeridade e controle estava indo direto pras cucuia e, pior, de braços dados com o resto de suas economias.

Rapidamente, traçaram o plano perfeito. Já que iriam gastar, abandonar as rédeas, que o gasto, então, fosse bem feito. Ligariam para o tio querido do menino, irmão querido da esposa querida, e pediriam para que ele viesse convidar o menino para uma volta pelo bairro. Enquanto os dois passeavam “a pé”, ele pegaria o automóvel do cunhado emprestado e iria comprar o presente decidido de última hora. Ah, o mais importante: o cunhado só poderia voltar após as 8 horas da noite para que ele e a esposa pudessem embrulhar o presente e escondê-lo devidamente.

Tudo estava indo super bem. Ligaram para o cunhado e ele concordou com tudo, desde o passeio com o sobrinho até o empréstimo do automóvel. Afinal de contas, era uma emergência.

- din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!!  Era a campainha anunciando a chegada do cunhado querido. O desgraçado adorava tocar a bendita três vezes seguida.

Assim que os dois, filho e cunhado, saíram, ele pegou o carro e foi à cata da bicicleta. Por sorte, numa das poucas lojas ainda abertas ele achou o presente ideal, no tamanho certo, na cor preferida dele, brilhante como toda bicicleta deveria ser e cheia daqueles adesivos que só a garotada apreciava. Enfim, a bicicleta era simplesmente perfeita.

Ficou imaginando o momento em que o filho receberia o presente e em sua imaginação dedicou alguns segundos para observar minuciosa e detalhadamente o brilho de surpresa e encantamento que com certeza apareceria nos olhos do menino. Aquela imagem não teria preço...

- Ah, a cerimônia de entrega! Ela teria que ser especial também!  Considerou em pensamento.

Imaginou-se fazendo a brincadeira do quente e frio até o filho encontrar o presente todo embrulhado para, em seguida, destruir em décimos de segundo e com total brutalidade o embrulho feito com tanto carinho e cuidado pela mãe (claro, estas coisas de embrulho teriam que ficar a cargo da mãe!!!).

O vendedor trouxe-o de volta a realidade ao perguntar como ele iria pagar. Somente após o pagamento é que o vendedor da loja lhe informou que a bike (fala-se “báique” e era dessa maneira que seu filho provavelmente iria chamar a bicicleta) viria desmontada, mas com um manual de instruções acompanhando o produto.

Aquela informação sobre o manual teve um efeito devastador sobre ele. Imediatamente, viu-se perdendo horas tentando montar a bicha (note que a bicicleta mudou de nome outra vez) e, pior, correndo o risco de não conseguir finalizar a obra a contento. Isso seria um desastre completo e, evidentemente, esse risco ele não poderia correr.

Decidiu que um bicicleteiro realizaria aquela tarefa com muito mais propriedade do que ele, correndo muito menos riscos e, principalmente, com muito mais rapidez. Ele precisava chegar em casa antes do filho, ou seja, antes das 20:00 horas e já eram 18:30 horas passadas. Seria uma corrida contra o tempo.

Por sorte, havia um bicicleteiro ao lado da loja de bicicletas.

O trabalho de montagem da bicicleta até que foi rápido. O problema foi colocar o trambolho (trambolho?) “montado” dentro do carro. Aquilo, sim, exigiu o trabalho conjunto de boa parte de seus neurônios e dos do bicicleteiro também.

Após algumas tentativas infrutíferas no porta-malas, acompanhadas de uma série de impropérios, alguns baixinhos, outros em pensamento e outros em voz alta mesmo, decidiram tentar colocar o presente no banco de trás do carro.

- Sucesso! - Exultou sem considerar, obviamente, o rasgo no banco de couro do carro do cunhado. - ...mas isso não seria levado em conta. Não! Claro que não seria levado em conta! De jeito nenhum! Nunca!

Enquanto dirigia de volta para casa, começou a levar em conta o rasgo no banco do carro do cunhado:
- Mas que $#§ÿ*ʓ#γ&%!!! Porque eu não vi que a $#§ÿ*ʓ#γ&% da bicicleta iria se enganchar na $#§ÿ*ʓ#γ&% do banco!!! Aquele $#§ÿ*ʓ#γ&% do meu cunhado vai me encher o $#§ÿ*ʓ#γ&% por causa disso!!!

Acabou chegando em casa um pouco antes das 20:00 horas. Seu filho logo estaria ali. A mulher correu para ver o presente e, claro, também se encantou.

Agora, o ato final: tirar a bicicleta do carro do cunhado e preparar o presente para uma entrega adequada, conforme seus devaneios na loja de brinquedos. O embrulho poderia ser feito em menos de um minuto e...

- Pôxa vida, porque que é que a bicha não estava saindo do carro agora?  Falou enquanto a esposa assistia a tudo silenciosamente.

- A bicicleta não está saindo?  Ela perguntou.

Sem responder, ele deu a volta no carro e se sentou no banco de trás pelo outro lado.

- Eu vou empurrar enquanto você puxa, ta bom?  Ele falou já num tom de voz meio alterado.

Puxa daqui, empurra dali e nada da bicha sair do carro. Alguma coisa estava emperrando a bicicleta. Um pouco mais de força aqui, um pouco mais de força ali e...pronto: mais um rasgo no banco de couro do carro do cunhado. E a bicicleta continuava entalada.

De repente, os dois ouviram um som aterrorizante e ao mesmo tempo familiar:
- din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!!

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