quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Círculo Avermelhado

Seis e meia da manhã. O despertador tocou.

Depois de tomar meu café da manhã, fui fazer a barba e escovar os dentes. Quando olhei para o espelho, tomei o maior susto.
- Que estranho!! - Pensei comigo mesmo. - Não havia notado aquela marca em minha testa antes!

Era um círculo perfeito, bem no meio da testa. A pele, na região do círculo, estava um pouco avermelhada, como se estivesse irritada, acentuando a circunferência.
Lavei a mancha, raspei, esfreguei...e nada, nada aconteceu. O círculo avermelhado continuava lá.

- Meu Deus! Como faria para ir trabalhar? - Seria bom eu já ir preparando algumas respostas-padrão, pois, com toda a certeza, teria que responder a uma infinidade de perguntas sobre aquela marca.

O chato do Teodoro vai me atormentar o dia inteiro. Para ele, vou dizer que sonhei com a marca e que ela se tratava de algo espiritual, do tipo “o escolhido” e que, quando acordei...SHAZAM!!!...a marca já estava lá.

- Ihhhh...as meninas da recepção!!! Nossa, vou receber um bombardeio de perguntas. Já estou até vendo: “Mateus, o que é isso em sua testa??”, ou então “Isso é que é vontade de ser diferente, eihn, Mateus!!” e, para finalizar, “Ei, Mateus, não tinha um lugarzinho melhor para fazer uma tatuagem???”

O pior de tudo é que as meninas da recepção sempre falam, todas, ao mesmo tempo e eu não consigo entender as três falando juntas. Para dizer a verdade, é claro que eu entendo mas, para irritá-las um pouquinho, eu sempre faço minha cara especial de interrogação e peço para que repitam “isolada” e “pausadamente” as perguntas. Nossa, como isso mexe com elas.

- Putz, e o ônibus? - Lembrei-me do ônibus que iria ter que pegar. Todo mundo iria olhar pra mim. Vai ter aquele cara que não vai conseguir disfarçar, vai ficar encarando e só depois de um tempão, sem graça, vai desviar o olhar. Também vai ter aquele que vai olhar apenas quando eu estiver distraído ou quando eu não estiver olhando para a direção dele.

- E as crianças? – Pensei. Comecei a imaginar os dois tipos possíveis: as santinhas e as encapetadas. As santinhas são as que vão olhar, não vão entender e vão perguntar para o pai ou para a mãe: “o que era aquilo?”. Evidentemente, quando estiverem na parte do “aquilo”, estarão com o dedo apontado diretamente na direção da minha testa.

Bom...tem também o outro tipo. Pois bem... as encapetadas também irão olhar, também não irão entender e também irão perguntar para o pai ou para a mãe “o que era aquilo” e com o mesmo dedo apontado. A diferença entre as primeiras crianças e estas é que, depois da explicação do pai ou da mãe, as santinhas irão recolher o dedo imediatamente e parar de olhar.

- Engraçado!! Não me preocupei nenhum pouquinho com a Cláudia. - Tinha certeza de que ela iria achar a marca “uma gracinha”. Isso mesmo: ela iria chamar a marca de “marquinha” e ainda diria que ela era “charmosa”. Agora, pensando nisso, também acho que a marca iria ficar linda na testa da Claudinha.

Bom, não adiantava ficar pensando...tinha que ir para o trabalho e já estava super atrasado. Pensei em não fazer a barba naquele dia. Seria uma estratégia para desviar a atenção das pessoas. - Não!!! Péssima idéia. Iriam pensar que além de marcado eu ainda era desleixado.

- Já sei, vou usar o cabelo prá frente, ao invés de penteá-lo para traz, como sempre faço. Vamos ver como é que ele fica.
- Uau! Quase tampou o círculo inteiro! Puxa, que alívio!!!


10 minutos depois, ao entrar no ônibus...

- Ei, que engraçado! Parece que todo mundo resolveu pentear o cabelo prá frente hoje!!!

Quando a xícara de chá foi ao chão

Quando a xícara de chá foi ao chão, nem todos se viraram imediatamente para olhar.
Ricardo, o filho mais velho de Seu Gregório, entrava na cozinha no exato momento em que seu pai tentava pegar a xícara de chá com suas mãos trêmulas.

Ricardo pôde ver quando as velhas mãos perderam-se da xícara, deixando-a cair, banhando todo o piso. O barulho da louça quebrando, se espatifando no piso da cozinha, interrompeu a animada conversa entre Dna Yara e Tamiris, esposa e filha de Seu Gregório.

Elas pararam e olharam, primeiro para o chão molhado e salpicado pela louça, depois para o velho homem sentado no banquinho branco da cozinha com os braços soltos sobre os joelhos e o rosto voltado para o chão. Ainda com a sobra de um sorriso no rosto, elas ficaram olhando para ele por um tempo que pareceu ser uma eternidade e que, provavelmente, não demorou mais que alguns segundos.

Seu Gregório olhava para o chá esparramado no chão da cozinha e seus olhos boiavam entre as lágrimas que queriam mas ainda não haviam decidido cair e se juntar ao chá.

Antes que a irreversibilidade da situação comprometesse a todos, Ricardo abriu caminho entre a delicadeza e a surpresa e procurou amparar o pai:
- Pai! Essa xícara vive escorregando da minha mão também! Vamos para a sala ver o que está passando na televisão!

Falando isso, Ricardo segurou seu pai pelos ombros e o fez levantar. Enquanto caminhavam pela cozinha, virou-se para a irmã Tamiris e falou de maneira propositalmente despretensiosa:
- Maninha! Você poderia começar a limpar essa bagunça? Eu já volto para te ajudar! - A complementação para o final da frase foi uma piscadela disfarçada, selando um pacto de cumplicidade.

Ninguém admitia que a falta de destreza era um anúncio inevitável do peso dos anos. Seu Gregório, por seu turno, fazia de tudo para demonstrar exatamente o contrário. O golpe mais duro, contudo, não seria o chá no chão ou a xícara despedaçada, seria, sim, ver as lágrimas indeterminadas, justificadas, que Seu Gregório quase não conseguiu bloquear.

A instantâneidade do evento, a ação esperada mas mesmo assim surpreendente do peso da idade, a fragilidade e efemeridade da vida, tudo isso junto, de repente, resumiu-se naquela xícara que alçou vôo e mirou direto para o chão.

Seu Gregório, do alto de seus quase 80 anos, viu-se, de repente, frente a frente com o ônus da idade.

- Acho que nosso time joga hoje!! - O pai falou para o filho enquanto cruzavam a cozinha e os olhares das mulheres. - Faz tempo que não vemos um jogo juntos.
A segunda frase foi dita em meio a um início de sorriso confiante nascendo nos lábios do velho homem.

A idade tem seus ônus, é verdade, mas tem seus bônus também. Seu Gregório entendeu e atendeu ao apoio imediato do filho Ricardo.
- Pai! Espera um pouquinho enquanto ajudo a Tamiris e a mãe lá na cozinha!!!  Ricardo falou enquanto se levantava.

O filho caminhou até a cozinha cruzando a sala a passos largos, heróicos e confiantes. O velho acompanhou o filho com os olhos orgulhosos e cheios de ternura e não se surpreendeu quando o viu voltando, algum tempo depois, abraçado à mãe e à irmã. Desviou rapidamente o olhar e voltou-se para a televisão mantendo aquele ar solene de quem está no controle da situação.

- Como está o jogo, Pai? - Perguntou a filha Tamiris, fingindo não ter percebido a fragilidade do momento.
Antes que o velho homem respondesse, todos já haviam se apertado ao seu redor.

Diiinn, Dóóónn! ! !

Eram tempos de dinheiro curto. Seu pulso era firme no controle das despesas e ele fazia questão de manter a austeridade mesmo na compra dos presentes de Natal para a família. Em sua lógica, se o dinheiro era curto, as rédeas deveriam ser curtas também.

Naquele ano, nem o Natal escaparia. Decidiu e conseguiu fazer com que sua mulher concordasse com ele: as compras de presente de Natal estariam limitadas apenas ao presente do filho.

Nada de presente de Natal para as tias, sobrinhas, filhos de vizinhos e etc, etc, etc. Naquele ano, só o filho e, mesmo assim, o presente dele ainda teria que ser alguma coisa na base da lembrancinha.

Nem ele, nem a esposa conseguiam chegar num consenso a respeito da lembrancinha do filho. À medida que o Natal se aproximava, aumentava a dúvida e o aperto no coração dos dois.

E, assim, eles conseguiram resistir heroicamente até a véspera do Natal quando, de repente, um lampejo de última hora o fez mudar de idéia: ele iria encontrar alguma coisa melhor que uma “lembrancinha” para o menino.

- É incrível o que um garoto de oito anos é capaz de fazer, não é mesmo?  Pensou consigo.

Com o apoio da esposa, decidiram que iriam comprar uma bicicleta nova para o menino. Naquele momento, o que havia restado de austeridade e controle estava indo direto pras cucuia e, pior, de braços dados com o resto de suas economias.

Rapidamente, traçaram o plano perfeito. Já que iriam gastar, abandonar as rédeas, que o gasto, então, fosse bem feito. Ligariam para o tio querido do menino, irmão querido da esposa querida, e pediriam para que ele viesse convidar o menino para uma volta pelo bairro. Enquanto os dois passeavam “a pé”, ele pegaria o automóvel do cunhado emprestado e iria comprar o presente decidido de última hora. Ah, o mais importante: o cunhado só poderia voltar após as 8 horas da noite para que ele e a esposa pudessem embrulhar o presente e escondê-lo devidamente.

Tudo estava indo super bem. Ligaram para o cunhado e ele concordou com tudo, desde o passeio com o sobrinho até o empréstimo do automóvel. Afinal de contas, era uma emergência.

- din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!!  Era a campainha anunciando a chegada do cunhado querido. O desgraçado adorava tocar a bendita três vezes seguida.

Assim que os dois, filho e cunhado, saíram, ele pegou o carro e foi à cata da bicicleta. Por sorte, numa das poucas lojas ainda abertas ele achou o presente ideal, no tamanho certo, na cor preferida dele, brilhante como toda bicicleta deveria ser e cheia daqueles adesivos que só a garotada apreciava. Enfim, a bicicleta era simplesmente perfeita.

Ficou imaginando o momento em que o filho receberia o presente e em sua imaginação dedicou alguns segundos para observar minuciosa e detalhadamente o brilho de surpresa e encantamento que com certeza apareceria nos olhos do menino. Aquela imagem não teria preço...

- Ah, a cerimônia de entrega! Ela teria que ser especial também!  Considerou em pensamento.

Imaginou-se fazendo a brincadeira do quente e frio até o filho encontrar o presente todo embrulhado para, em seguida, destruir em décimos de segundo e com total brutalidade o embrulho feito com tanto carinho e cuidado pela mãe (claro, estas coisas de embrulho teriam que ficar a cargo da mãe!!!).

O vendedor trouxe-o de volta a realidade ao perguntar como ele iria pagar. Somente após o pagamento é que o vendedor da loja lhe informou que a bike (fala-se “báique” e era dessa maneira que seu filho provavelmente iria chamar a bicicleta) viria desmontada, mas com um manual de instruções acompanhando o produto.

Aquela informação sobre o manual teve um efeito devastador sobre ele. Imediatamente, viu-se perdendo horas tentando montar a bicha (note que a bicicleta mudou de nome outra vez) e, pior, correndo o risco de não conseguir finalizar a obra a contento. Isso seria um desastre completo e, evidentemente, esse risco ele não poderia correr.

Decidiu que um bicicleteiro realizaria aquela tarefa com muito mais propriedade do que ele, correndo muito menos riscos e, principalmente, com muito mais rapidez. Ele precisava chegar em casa antes do filho, ou seja, antes das 20:00 horas e já eram 18:30 horas passadas. Seria uma corrida contra o tempo.

Por sorte, havia um bicicleteiro ao lado da loja de bicicletas.

O trabalho de montagem da bicicleta até que foi rápido. O problema foi colocar o trambolho (trambolho?) “montado” dentro do carro. Aquilo, sim, exigiu o trabalho conjunto de boa parte de seus neurônios e dos do bicicleteiro também.

Após algumas tentativas infrutíferas no porta-malas, acompanhadas de uma série de impropérios, alguns baixinhos, outros em pensamento e outros em voz alta mesmo, decidiram tentar colocar o presente no banco de trás do carro.

- Sucesso! - Exultou sem considerar, obviamente, o rasgo no banco de couro do carro do cunhado. - ...mas isso não seria levado em conta. Não! Claro que não seria levado em conta! De jeito nenhum! Nunca!

Enquanto dirigia de volta para casa, começou a levar em conta o rasgo no banco do carro do cunhado:
- Mas que $#§ÿ*ʓ#γ&%!!! Porque eu não vi que a $#§ÿ*ʓ#γ&% da bicicleta iria se enganchar na $#§ÿ*ʓ#γ&% do banco!!! Aquele $#§ÿ*ʓ#γ&% do meu cunhado vai me encher o $#§ÿ*ʓ#γ&% por causa disso!!!

Acabou chegando em casa um pouco antes das 20:00 horas. Seu filho logo estaria ali. A mulher correu para ver o presente e, claro, também se encantou.

Agora, o ato final: tirar a bicicleta do carro do cunhado e preparar o presente para uma entrega adequada, conforme seus devaneios na loja de brinquedos. O embrulho poderia ser feito em menos de um minuto e...

- Pôxa vida, porque que é que a bicha não estava saindo do carro agora?  Falou enquanto a esposa assistia a tudo silenciosamente.

- A bicicleta não está saindo?  Ela perguntou.

Sem responder, ele deu a volta no carro e se sentou no banco de trás pelo outro lado.

- Eu vou empurrar enquanto você puxa, ta bom?  Ele falou já num tom de voz meio alterado.

Puxa daqui, empurra dali e nada da bicha sair do carro. Alguma coisa estava emperrando a bicicleta. Um pouco mais de força aqui, um pouco mais de força ali e...pronto: mais um rasgo no banco de couro do carro do cunhado. E a bicicleta continuava entalada.

De repente, os dois ouviram um som aterrorizante e ao mesmo tempo familiar:
- din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!! din, dóóónnn!!!

CENTENÁRIO DA ONU

Texto originalmente escrito em abril de 2004.


Hoje, dia 24 de outubro de 2045, o mundo está comemorando os cem anos de surgimento da Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse mesmo dia, mas no ano de 1945, foi promulgada a Carta das Nações Unidas, uma espécie de Constituição da entidade, assinada na época por 51 países, entre eles o Brasil.

Criada logo após a 2ª Guerra Mundial, o foco da atuação da ONU sempre foi a manutenção da paz e do desenvolvimento em todos os países do mundo.

Ao longo destes cem anos, o desenvolvimento da entidade pode ser dividido em dois grandes momentos. O primeiro deles é caracterizado pelo seu enfraquecimento gradual a partir da guerra fria e culminando com a Invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003. A ONU efetivamente perdeu muito de sua força e consistência pela inépcia demonstrada perante a invasão do Iraque sem qualquer respaldo da instituição.

O segundo grande momento da ONU foi a sua união com a Organização Mundial do Comércio (OMC) no final de 2027. Foi a partir dessa união que o mundo viu surgir as bases para a criação de um novo conceito de Estado e que se convencionou chamar Well Fare World.

Antes, porém, de detalharmos esse segundo estágio da evolução histórica da ONU é conveniente analisarmos um movimento importante no comércio mundial a partir de 2015. Nesse ano foi fundado o bloco econômico dos países emergentes, formado inicialmente por China, Brasil, Índia, Argentina e outros 18 países.

A fantástica evolução desse bloco econômico em relação aos demais blocos econômicos mundiais, entre eles a Alca e a União Européia, apenas para citar os dois maiores exemplos, deflagrou sanções alfandegárias e subsídios injustificados por parte dos países considerados prejudicados. O estremecimento das relações comerciais, como conseqüência imediata destes atos ilícitos, gerou, por sua vez, um enfraquecimento nas relações diplomáticas entre os países envolvidos. O ápice dos desentendimentos se deu em 2025, entre Brasil e Estados Unidos, quando as duras ameaças de retaliação de ambos os lados resultaram na expulsão do corpo diplomático nos dois países.

Finalmente, para resolver estas questões diplomáticas originadas, por sua vez, de delicadíssimas questões econômicas, foi necessária uma aproximação entre os dois principais organismos supra-nacionais da época: a ONU e a OMC.

A alteração do estatuto de ambas as entidades privilegiou uma distribuição “justa e necessária” da riqueza gerada nas transações comerciais mundiais. O que se buscou foi um conceito diferente do conhecido “Estado do Bem-Estar Social” do final do século XX. O que se buscava era algo mais amplo e que permitisse o real desenvolvimento dos países que precisavam se desenvolver. Nesse sentido, é importantíssimo ressaltar a primeira decisão conjunta do novo organismo e que se tornou um marco para a construção do novo conceito para Well Fare World: o perdão total e unilateral de todas as dívidas externas daqueles países que ainda precisavam resolver problemas estruturais considerados básicos.

Apesar de toda a evolução apresentada, é certo que ainda há muito o que fazer. Nesse centenário da ONU, portanto, além de saudarmos a coragem dos países que se comprometeram com os novos objetivos mundiais, convém rezarmos pela manutenção dos ideais que permitiram esse grande passo da raça humana.