sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Fábrica de Guarda-Chuvas

De tempos em tempos o homem se encanta consigo mesmo e a cegueira desse encanto o impede de ver seus próprios erros.

Filipo nasceu na metade do século XIX. Seu pai, Seu João Firmino, era fazendeiro, plantador de café em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. A família prosperava a olhos vistos e a medida da prosperidade não se dava apenas pelas sacas de café comercializadas, também se dava pela quantidade de escravos que o Seu João Firmino possuía.

Seu João Firmino era um sujeito duro, violento, cruel até. Pouca gente rezou por ele quando a notícia de seu falecimento correu a vila de São João.

Filipo tomou conta dos negócios da família com o mesmo afinco do pai. Mostrou-se capaz de negociar tão bem quanto o pai, mostrou ser tão duro quanto o pai e tratou seus escravos com a mesma crueldade que seu pai.

Filipo, assim como o pai, fez fortuna em São João da Boa Vista.

Os filhos de Filipo estudaram na Europa. João Firmino Neto, o primogênito, formou-se em Direito enquanto Antônio, o outro filho, não conseguiu terminar a faculdade de Administração. Quando voltaram para o Brasil, um escritório novinho em folha esperava pelo advogado e uma vaga na administração da fazenda esperava pelo quase-administrador.

Eram novos tempos. Um novo século havia começado. O trabalho dos escravos havia sido abolido e a fazenda de Filipo já não tinha a mesma pujança de antes. Filipo morreu alguns anos antes de ver seu filho João abandonar o escritório de advocacia e voltar para a Europa. Ele também não viu seu outro filho, Antônio, transformar sua antiga fazenda de café, onde três gerações de sua família plantou, colheu e prosperou, numa moderna e inovadora fábrica de guarda-chuvas.

As idéias trazidas da Europa estavam pouco a pouco sendo colocadas em prática no resto do mundo e Antônio tratou de antecipá-las no Brasil. Centenas de empregados trabalhavam de 12 a 16 horas por dia para Antônio, sem descanso semanal, sem férias, sem nada além de um salário mirrado e descontado.

João, o advogado, o neto de João Firmino, morreu antes de completar um ano na Europa enquanto Antônio, seu irmão, fazia fortuna em São João da Boa Vista.

Antônio casou-se com Lucinda, uma moça muito parecida com ele. Ambos eram inteligentes, estudados e seguros de si; ambos eram orgulhosos, arrogantes e auto-suficientes. Ambos brigavam o tempo todo e em meio a tantas brigas Lucinda anunciou que estava grávida.

As brigas continuaram, agora para escolher o nome do bebê. Antônio queria que o menino se chamasse Marco Antônio, enquanto Lucinda queria homenagear um primo distante, Stephen. Para Antônio, não havia sentido a homenagem e, além disso, este primo não era distante o suficiente.

Alguns meses após o nascimento do bebê, registrado com o nome de Marco Antônio, Antônio matou Lucinda pensando defender sua honra, desconfiado que estava da real paternidade da criança.

Antônio não precisou rogar a ajuda do irmão advogado, desaparecido anos antes na Europa. Aliado ao machismo reinante no país, o patriarcado social se incumbiu de inocentá-lo.

Marco Antônio não conheceu nem a mãe e nem o pai. Antônio, o pai, fez questão de entregá-lo a um orfanato de onde Marco Antônio só saiu após completar a maioridade.

Muitos anos depois de deixar o orfanato, Marco Antônio recebeu uma carta em sua casa, na periferia da cidade. Ele e sua esposa leram a carta juntos enquanto suas duas crianças brincavam no único quarto da casa.

Na carta, o pai que Marco Antônio não conheceu se apresentava e pedia desculpas por tudo. Pedia desculpas por não ter acompanhado o seu crescimento, por tê-lo abandonado, por tê-lo separado de sua mãe, enfim, por tudo o que havia acontecido na vida dele desde então.

A carta mostrava muita dor e arrependimento. O objetivo não era o perdão mas, sim, contar uma história, a história da família de Marco Antônio. O perdão, impossível, sequer foi cogitado.

Antônio contou todos os detalhes daquela família, desde os tempos de Seu João Firmino, bisavô de Marco Antônio, e não poupou as maldades e nem os erros cometidos por cada um de seus membros.

Na carta, Antônio deixava sua herança para o filho: um pedido de desculpas e uma fábrica de guarda-chuvas em São João da Boa Vista. Nas entrelinhas, contudo, havia a esperança que Marco Antônio pudesse fazer diferente, diferente de tudo o que a sua família havia feito até então.