"Artigo jurídico publicado no Jornal de Santa Catarina em 23 de março de 2009."
O que o mundo está vivendo agora é uma crise capitalista como tantas outras que já existiram e tantas outras que ainda existirão. Isso significa que continuaremos convivendo com crises capitalistas. Essa é a má notícia!
O que essa crise tem de diferente e o que ela pode oportunizar? Penso que as respostas estão inter-relacionadas.
Essa crise é diferente pela sua capacidade de ter impactos globais. A última crise globalizada foi a crise dos anos 30, longe quase 80 anos no tempo. A crise capitalista dos anos 30 foi devastadora, produziu um exército de desempregados e trouxe como consequências diretas o aumento nas tarifas de importação dos principais participantes do comércio mundial daquele período. A consequência indireta, decorrente daquela, foi a Segunda Grande Guerra Mundial.
Estes dois fatos são suficientes para explicar por que a imprensa e os principais líderes mundiais sempre se referem à crise dos anos 30 quando tratam da atual. A primeira crise capitalista do século XXI também apresenta oportunidades. Essa é a boa notícia!
Talvez a principal oportunidade seja a possibilidade de instalação de uma governança global de regulação e regulamentação do sistema financeiro. Em outras palavras, a crise pode determinar a criação de um mecanismo de controle do sistema financeiro do planeta com o objetivo de evitar que novas crises iguais a esta voltem a ocorrer.
Mais importante do que o mecanismo a ser criado (espera-se que seja criado mesmo), a governança global tem outros significados. Um deles é a amplitude: os objetivos a serem alcançados precisam ser globais; outro significado importante relaciona-se com a solidariedade: deverá beneficiar a todos, países pobres e ricos, indiscriminadamente.
Quem sabe, não seja um bom exemplo a ser seguido em outros assuntos tão importantes quanto o sistema financeiro global. Quem sabe não se instale um fórum para a instalação de uma governança global específica para o meio ambiente ou um fórum para a discussão efetiva da questão do aquecimento global. Finalmente, quem sabe, um dia ainda poderemos ver uma governança global para a distribuição equitativa das riquezas do planeta.
segunda-feira, 23 de março de 2009
domingo, 8 de março de 2009
A CRISE É SÉRIA
"Artigo jurídico publicado no Jornal A Notícia em 08 de março de 2009."
As bolsas de valores do mundo todo parecem brincar de montanha russa. Um dia sobem, no outro caem. A bolsa brasileira, a Bovespa, tenta não acompanhar o sobe-e-desce, mas não tem obtido resultados muito satisfatórios.
O comportamento das bolsas tem refletido o ânimo e as percepções dos investidores, gerando, em consequência, um efeito cascata nos demais setores da economia. Isso explica as demissões anunciadas em diversas megacompanhias pelo mundo. Explica, também, o cancelamento de investimentos e as interrupções nos processos de fusão e aquisição de empresas.
O momento, portanto, é de cautela.Respaldados nos ensinamentos de outras crises, os governos das principais economias do mundo procuraram agir rapidamente. Os US$ 700 bilhões disponibilizados pelo governo americano para salvar o mercado financeiro não foram uma resposta só para a crise. O objetivo era serenar ânimos e reverter percepções. A União Europeia fez a mesma coisa e, em seguida, a China.
Não só os meios de comunicação, mas os líderes das maiores economias têm comparado a atual crise capitalista, pois não deixa de ser uma crise do capitalismo, com a crise dos anos 30, deflagrada com o crash da bolsa de Nova York, em outubro de 1929.
O crash talvez tenha se transformado na crise dos anos 30 pela demora da resposta do governo americano. Com essa lição em mente, explica-se a postura rápida e decisiva da União Europeia, da China e dos Estados Unidos agora.
O Brasil não pode subestimar a força de uma crise capitalista. Seremos impactados na medida de nossa inserção no comércio mundial e, principalmente, na medida do altíssimo grau de entrelaçamento dos mercados de capitais mundiais.
O sistema financeiro brasileiro é considerado um dos mais evoluídos do planeta. Todos os nossos planos econômicos de combate à inflação acabaram por tornar nossa estrutura financeira, reconhecidamente ágil, sólida e segura. Aprendemos com nossos próprios erros, é verdade. Contudo, a crise se agiganta. Não podemos subestimá-la pela simples razão de que a crise não irá subestimar o Brasil.
As bolsas de valores do mundo todo parecem brincar de montanha russa. Um dia sobem, no outro caem. A bolsa brasileira, a Bovespa, tenta não acompanhar o sobe-e-desce, mas não tem obtido resultados muito satisfatórios.
O comportamento das bolsas tem refletido o ânimo e as percepções dos investidores, gerando, em consequência, um efeito cascata nos demais setores da economia. Isso explica as demissões anunciadas em diversas megacompanhias pelo mundo. Explica, também, o cancelamento de investimentos e as interrupções nos processos de fusão e aquisição de empresas.
O momento, portanto, é de cautela.Respaldados nos ensinamentos de outras crises, os governos das principais economias do mundo procuraram agir rapidamente. Os US$ 700 bilhões disponibilizados pelo governo americano para salvar o mercado financeiro não foram uma resposta só para a crise. O objetivo era serenar ânimos e reverter percepções. A União Europeia fez a mesma coisa e, em seguida, a China.
Não só os meios de comunicação, mas os líderes das maiores economias têm comparado a atual crise capitalista, pois não deixa de ser uma crise do capitalismo, com a crise dos anos 30, deflagrada com o crash da bolsa de Nova York, em outubro de 1929.
O crash talvez tenha se transformado na crise dos anos 30 pela demora da resposta do governo americano. Com essa lição em mente, explica-se a postura rápida e decisiva da União Europeia, da China e dos Estados Unidos agora.
O Brasil não pode subestimar a força de uma crise capitalista. Seremos impactados na medida de nossa inserção no comércio mundial e, principalmente, na medida do altíssimo grau de entrelaçamento dos mercados de capitais mundiais.
O sistema financeiro brasileiro é considerado um dos mais evoluídos do planeta. Todos os nossos planos econômicos de combate à inflação acabaram por tornar nossa estrutura financeira, reconhecidamente ágil, sólida e segura. Aprendemos com nossos próprios erros, é verdade. Contudo, a crise se agiganta. Não podemos subestimá-la pela simples razão de que a crise não irá subestimar o Brasil.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
Fábrica de Guarda-Chuvas
De tempos em tempos o homem se encanta consigo mesmo e a cegueira desse encanto o impede de ver seus próprios erros.
Filipo nasceu na metade do século XIX. Seu pai, Seu João Firmino, era fazendeiro, plantador de café em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. A família prosperava a olhos vistos e a medida da prosperidade não se dava apenas pelas sacas de café comercializadas, também se dava pela quantidade de escravos que o Seu João Firmino possuía.
Seu João Firmino era um sujeito duro, violento, cruel até. Pouca gente rezou por ele quando a notícia de seu falecimento correu a vila de São João.
Filipo tomou conta dos negócios da família com o mesmo afinco do pai. Mostrou-se capaz de negociar tão bem quanto o pai, mostrou ser tão duro quanto o pai e tratou seus escravos com a mesma crueldade que seu pai.
Filipo, assim como o pai, fez fortuna em São João da Boa Vista.
Os filhos de Filipo estudaram na Europa. João Firmino Neto, o primogênito, formou-se em Direito enquanto Antônio, o outro filho, não conseguiu terminar a faculdade de Administração. Quando voltaram para o Brasil, um escritório novinho em folha esperava pelo advogado e uma vaga na administração da fazenda esperava pelo quase-administrador.
Eram novos tempos. Um novo século havia começado. O trabalho dos escravos havia sido abolido e a fazenda de Filipo já não tinha a mesma pujança de antes. Filipo morreu alguns anos antes de ver seu filho João abandonar o escritório de advocacia e voltar para a Europa. Ele também não viu seu outro filho, Antônio, transformar sua antiga fazenda de café, onde três gerações de sua família plantou, colheu e prosperou, numa moderna e inovadora fábrica de guarda-chuvas.
As idéias trazidas da Europa estavam pouco a pouco sendo colocadas em prática no resto do mundo e Antônio tratou de antecipá-las no Brasil. Centenas de empregados trabalhavam de 12 a 16 horas por dia para Antônio, sem descanso semanal, sem férias, sem nada além de um salário mirrado e descontado.
João, o advogado, o neto de João Firmino, morreu antes de completar um ano na Europa enquanto Antônio, seu irmão, fazia fortuna em São João da Boa Vista.
Antônio casou-se com Lucinda, uma moça muito parecida com ele. Ambos eram inteligentes, estudados e seguros de si; ambos eram orgulhosos, arrogantes e auto-suficientes. Ambos brigavam o tempo todo e em meio a tantas brigas Lucinda anunciou que estava grávida.
As brigas continuaram, agora para escolher o nome do bebê. Antônio queria que o menino se chamasse Marco Antônio, enquanto Lucinda queria homenagear um primo distante, Stephen. Para Antônio, não havia sentido a homenagem e, além disso, este primo não era distante o suficiente.
Alguns meses após o nascimento do bebê, registrado com o nome de Marco Antônio, Antônio matou Lucinda pensando defender sua honra, desconfiado que estava da real paternidade da criança.
Antônio não precisou rogar a ajuda do irmão advogado, desaparecido anos antes na Europa. Aliado ao machismo reinante no país, o patriarcado social se incumbiu de inocentá-lo.
Marco Antônio não conheceu nem a mãe e nem o pai. Antônio, o pai, fez questão de entregá-lo a um orfanato de onde Marco Antônio só saiu após completar a maioridade.
Muitos anos depois de deixar o orfanato, Marco Antônio recebeu uma carta em sua casa, na periferia da cidade. Ele e sua esposa leram a carta juntos enquanto suas duas crianças brincavam no único quarto da casa.
Na carta, o pai que Marco Antônio não conheceu se apresentava e pedia desculpas por tudo. Pedia desculpas por não ter acompanhado o seu crescimento, por tê-lo abandonado, por tê-lo separado de sua mãe, enfim, por tudo o que havia acontecido na vida dele desde então.
A carta mostrava muita dor e arrependimento. O objetivo não era o perdão mas, sim, contar uma história, a história da família de Marco Antônio. O perdão, impossível, sequer foi cogitado.
Antônio contou todos os detalhes daquela família, desde os tempos de Seu João Firmino, bisavô de Marco Antônio, e não poupou as maldades e nem os erros cometidos por cada um de seus membros.
Na carta, Antônio deixava sua herança para o filho: um pedido de desculpas e uma fábrica de guarda-chuvas em São João da Boa Vista. Nas entrelinhas, contudo, havia a esperança que Marco Antônio pudesse fazer diferente, diferente de tudo o que a sua família havia feito até então.
Filipo nasceu na metade do século XIX. Seu pai, Seu João Firmino, era fazendeiro, plantador de café em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. A família prosperava a olhos vistos e a medida da prosperidade não se dava apenas pelas sacas de café comercializadas, também se dava pela quantidade de escravos que o Seu João Firmino possuía.
Seu João Firmino era um sujeito duro, violento, cruel até. Pouca gente rezou por ele quando a notícia de seu falecimento correu a vila de São João.
Filipo tomou conta dos negócios da família com o mesmo afinco do pai. Mostrou-se capaz de negociar tão bem quanto o pai, mostrou ser tão duro quanto o pai e tratou seus escravos com a mesma crueldade que seu pai.
Filipo, assim como o pai, fez fortuna em São João da Boa Vista.
Os filhos de Filipo estudaram na Europa. João Firmino Neto, o primogênito, formou-se em Direito enquanto Antônio, o outro filho, não conseguiu terminar a faculdade de Administração. Quando voltaram para o Brasil, um escritório novinho em folha esperava pelo advogado e uma vaga na administração da fazenda esperava pelo quase-administrador.
Eram novos tempos. Um novo século havia começado. O trabalho dos escravos havia sido abolido e a fazenda de Filipo já não tinha a mesma pujança de antes. Filipo morreu alguns anos antes de ver seu filho João abandonar o escritório de advocacia e voltar para a Europa. Ele também não viu seu outro filho, Antônio, transformar sua antiga fazenda de café, onde três gerações de sua família plantou, colheu e prosperou, numa moderna e inovadora fábrica de guarda-chuvas.
As idéias trazidas da Europa estavam pouco a pouco sendo colocadas em prática no resto do mundo e Antônio tratou de antecipá-las no Brasil. Centenas de empregados trabalhavam de 12 a 16 horas por dia para Antônio, sem descanso semanal, sem férias, sem nada além de um salário mirrado e descontado.
João, o advogado, o neto de João Firmino, morreu antes de completar um ano na Europa enquanto Antônio, seu irmão, fazia fortuna em São João da Boa Vista.
Antônio casou-se com Lucinda, uma moça muito parecida com ele. Ambos eram inteligentes, estudados e seguros de si; ambos eram orgulhosos, arrogantes e auto-suficientes. Ambos brigavam o tempo todo e em meio a tantas brigas Lucinda anunciou que estava grávida.
As brigas continuaram, agora para escolher o nome do bebê. Antônio queria que o menino se chamasse Marco Antônio, enquanto Lucinda queria homenagear um primo distante, Stephen. Para Antônio, não havia sentido a homenagem e, além disso, este primo não era distante o suficiente.
Alguns meses após o nascimento do bebê, registrado com o nome de Marco Antônio, Antônio matou Lucinda pensando defender sua honra, desconfiado que estava da real paternidade da criança.
Antônio não precisou rogar a ajuda do irmão advogado, desaparecido anos antes na Europa. Aliado ao machismo reinante no país, o patriarcado social se incumbiu de inocentá-lo.
Marco Antônio não conheceu nem a mãe e nem o pai. Antônio, o pai, fez questão de entregá-lo a um orfanato de onde Marco Antônio só saiu após completar a maioridade.
Muitos anos depois de deixar o orfanato, Marco Antônio recebeu uma carta em sua casa, na periferia da cidade. Ele e sua esposa leram a carta juntos enquanto suas duas crianças brincavam no único quarto da casa.
Na carta, o pai que Marco Antônio não conheceu se apresentava e pedia desculpas por tudo. Pedia desculpas por não ter acompanhado o seu crescimento, por tê-lo abandonado, por tê-lo separado de sua mãe, enfim, por tudo o que havia acontecido na vida dele desde então.
A carta mostrava muita dor e arrependimento. O objetivo não era o perdão mas, sim, contar uma história, a história da família de Marco Antônio. O perdão, impossível, sequer foi cogitado.
Antônio contou todos os detalhes daquela família, desde os tempos de Seu João Firmino, bisavô de Marco Antônio, e não poupou as maldades e nem os erros cometidos por cada um de seus membros.
Na carta, Antônio deixava sua herança para o filho: um pedido de desculpas e uma fábrica de guarda-chuvas em São João da Boa Vista. Nas entrelinhas, contudo, havia a esperança que Marco Antônio pudesse fazer diferente, diferente de tudo o que a sua família havia feito até então.
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