quinta-feira, 5 de junho de 2008

À sombra da mesma árvore

O nome dela era Clarice. Ela sentava-se à sombra da mesma árvore todos os domingos. Meticulosamente, ela preparava o espaço aonde iria se sentar como se cada item fizesse parte de um ritual.

Em primeiro lugar, depositava a almofada no chão, bem encostada ao tronco da árvore. Depois, retirava o livro de dentro da sacola e o colocava ao lado da almofada. Em seguida, sentava-se vagarosamente como se não houvesse mais ninguém num raio de quilômetros. Entretanto, milhares de outras pessoas freqüentavam aquele lugar todos os domingos e, assim como Clarice, todas elas buscavam naquele parque o que não tinham durante a semana. As pessoas estavam ali para passear, correr, pular, gritar, sorrir, andar de bicicleta e...enquanto isso, Clarice ficava lá, sentada à sombra daquela árvore, sozinha, lendo seu livro. Para ela, todas as outras pessoas do parque eram invisíveis, não estavam realmente ali. Ao mesmo tempo, ou justamente por isso, ela sentia-se invisível também e voltava para casa sempre mais triste do que quando saía.

Mas neste domingo seria diferente. Clarice não queria passar mais um domingo entristecida e estava indecisa se talvez não fosse melhor ficar em casa.

Ele, Leônidas, também ia ao parque todos os domingos. Contudo, ele não era invisível. Já havia alguns domingos que ele observava aquela moça sentada à sombra da mesma árvore. A cada semana um detalhe dela, de Clarice, saltava aos olhos de Leônidas; num domingo, era o rosto delicado dela; no outro, os cabelos compridos, loiros e brilhantes dela; no domingo passado havia sido a lágrima que ela não conseguiu segurar. Cada domingo que passava fazia crescer em Leônidas a vontade de conhecer mais daquela moça, saber seu nome, conhecer sua voz, mas ele nunca conseguiu fazer mais do que ficar olhando de longe para ela.

Mas neste domingo seria diferente. Leônidas havia decidido que iria finalmente conversar com ela.

Clarice olhou para a sacola e para a almofada em cima do sofá e ficou pensando por um momento, parada, de pé no meio da sala. Depois de algum tempo, virou-se e decidiu que naquele domingo ela não iria ao parque.

E naquele domingo foi Leônidas quem se sentou à sombra da árvore de Clarice e voltou para casa entristecido.

Durante meses Leônidas tentou cumprir a promessa que havia feito para si mesmo, de conhecer aquela moça e dizer a ela o quanto ela ainda seria importante para ele. Todos os domingos, Leônidas procurava e esperava por ela, por nada.

Clarice também estava cumprindo sua promessa. Ela decidiu que não iria mais àquele lugar repleto de seres invisíveis, onde não havia quem a notasse e de onde voltava sempre um pouquinho mais triste.

Após alguns meses, Leônidas continuava procurando por Clarice todos os domingos e cada frustração aumentava a certeza e a necessidade que ele tinha de encontrá-la. Leônidas, então, decidiu fazer o improvável, decidiu colocar um anúncio no jornal: “Árvore solitária procura moça loira que costumava apoiar-se em seu tronco e ler aos domingos. Uma surpresa especial aguarda seu retorno.”

Pela lógica de Leônidas, sua idéia bem que poderia dar certo. A história dele com aquela moça já estava toda impregnada de improbabilidades: era improvável que ele um dia decidisse conversar com aquela garota e, afinal de contas, ele acabou se decidindo; também era improvável que ela deixasse de ir ao parque justamente no dia em que ele decidiu falar com ela e, afinal de contas, ela acabou decidindo não ir; finalmente, segundo a lógica de Leônidas, seria improvável que ela lesse o anúncio e fosse ao parque e, afinal de contas, talvez isso acontecesse também.

Clarice não costumava comprar jornais. Eram os livros que a atraiam. Ela passeava entre Doris Lessing e Cecília Meireles, entre Júlio Verne e Marion Zimmer Bradley. Nem mesmo a lógica improvável de Leônidas faria com que Clarice comprasse jornais justamente no dia em que o anúncio seria publicado.

Mas, essa ginástica toda, afinal de contas, acabou não sendo necessária.

Nesse dia, no caminho de volta do trabalho, Clarice ouviu desinteressada os comentários a respeito de um anúncio de jornal muito engraçado e diferente. Algumas pessoas no ônibus estavam comentavam da maluquice, da originalidade, da brincadeira de um anúncio sobre uma árvore solitária.

É claro que no dia seguinte, domingo, Clarice estava lá, no parque. É claro que seu lugar estava ocupado, havia um rapaz sentado à sombra da sua árvore.

Quando Leônidas levantou os olhos e encontrou os de Clarice, ela soube que havia sido ele o autor do anúncio e não conseguiu esconder um sorriso. Ele respondeu mostrando a almofada desocupada ao lado dele e o livro embrulhado para presente sobre ela.

Daquele dia em diante, vários livros foram divididos entre os três e nunca mais o domingo terminou entristecido, nem para Clarice, nem para Leônidas e muito menos para aquela árvore especial que ambos adotaram carinhosamente.

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