domingo, 4 de maio de 2008

A Vida não costuma avisar da mudança que virá

"Conto classificado no Concurso Literário “Contos para Viagem” promovido pela Editora Arte Literária de São Paulo em dezembro de 2006."


É engraçado como as coisas mudam quando a gente menos espera.
Hoje, por exemplo, o dia tinha tudo para ser 100% igual a todos os outros e acabou sendo maravilhosamente diferente!
Trabalho em São Paulo e te digo uma coisa: - Trabalhar em São Paulo não é fácil! Todo dia tem trânsito e ônibus lotado, todo dia é a mesma coisa!
Para variar, chequei atrasado ao trabalho e, também para variar, levei outra bronca do patrão. O dia já começou, digamos: - Beleza!
À noite, depois da aula no supletivo, peguei o ônibus para casa. Com certeza eu não iria agüentar ficar acordado a viagem toda. Hoje eu estava todo moído.
Antes de apoiar a cabeça no banco e cair no sono vi quando aquela mulher entrou no ônibus. Ela subiu os degraus bem devagar, aparentando estar bem mais cansada do que qualquer outra pessoa ali. Ela devia ter uns 35 anos.
Pagou a passagem sem olhar para o cobrador e procurou o primeiro banco vazio que pudesse ocupar. Adivinhou onde ela se sentou? Sim, ela se sentou do meu lado.
Observei-a enquanto caminhava na minha direção. Andava com cuidado, com tanto cuidado que parecia mover-se em câmera lenta. Aliás, todos os seus gestos eram assim, em câmera lenta. Reparei no lenço que escondia seus cabelos.
Assim que pediu licença para se sentar, tirou o lenço da cabeça e revelou seus cabelos curtíssimos. Seus cabelos eram curtos demais, tão curtos que me fizeram lembrar de uma tia minha que havia feito tratamento contra o câncer. Lembrei-me das sessões de quimioterapia da minha tia e como ela voltava acabada depois de cada sessão. Depois de um tempo ela também teve que cortar seus cabelos bem curtinho.
Enquanto a moça se sentava ao meu lado prometi a mim mesmo que não iria encará-la, mas não pude evitar quando a ouvi gemer baixinho.
- Você está bem? - Perguntei. - Precisa de alguma coisa?
Ela virou-se para mim e disse que estava tudo bem, que não era necessário que eu me preocupasse.
Sua voz saiu devagar, com uma leve pausa entre uma palavra e outra, mas toda cheia de ternura.
Abri minha mochila e ofereci a garrafa de água que havia comprado pouco antes de entrar no ônibus.
- Aceite! Ela ainda está fechada! - Insisti. - E se eu tomar não vou mais poder te oferecer.
Mais uma vez ela olhou para mim.
- Nossa! Como ela era linda! - Pensei comigo.
Ela, então, abriu um sorriso lindo, maravilhoso e acabou aceitando a garrafinha de água.
- Posso te falar uma coisa? - Perguntei. - Você ficou super bem com esse corte de cabelo.
Ela sorriu mais uma vez e disse:
- Para falar a verdade, eu também achei!
Acabamos rindo juntos.
Mais alguns minutos e já estávamos conversando como se fôssemos velhos conhecidos.
O tempo passava e o ônibus continuava correndo.
Não me sentia mais cansado e ela, com certeza, também estava diferente de quando entrou no ônibus.
Continuamos conversando e nos divertindo enquanto o ônibus avançava.
Mais alguns minutos e foi a vez dela me perguntar:
- Posso te falar uma coisa? Você tem que prometer que não vai dar risada!
Prometi que não iria rir dela, fosse o que fosse, mas já estava rindo quando respondi.
- Já faz alguns minutos que o ponto da minha casa passou! - Ela disse com a maior naturalidade do mundo e com aquele sorriso encantador nos lábios.
Segurei sua mão e falei:
- Tudo bem! Não conte pra ninguém, mas eu acho que o meu ponto passou antes do teu!
Levantamos e nos preparamos para descer.
Não tinha como saber, mas queria poder acompanhá-la todos os outros dias de sua vida.
O ônibus parou e descemos rindo, um buscando apoio nos braços do outro.
Quem olhasse, pensaria: - Com certeza, estavam bebendo!
Quem olhasse e pensasse dessa maneira talvez não estivesse tão errado assim. A partir daquela dia ela seria meu vício e dela eu iria querer me embriagar todos os dias.

2 comentários:

Larissa Felsky disse...

Olá querido Charles, adorei a crônica, como sempre, arrumando um tempinho para escrever não é?
Esse texto ainda não tinha lido, mas adorei!
Sou o primeiro comentário?
Oba!
Muito sucesso no seu blog, vou colocar nos meus favoritos e visitar sempre!

Um abraço pra vc, pra Sandra e pro Lucas!

Unknown disse...

Queridooooo .....
Esse eu não vou sequer comentar !!!
ADOREI !!!
Parabéns ...
Um grande beijo e sucesso aqui no BLOG, ok ???!!!
SILVINHA