"Conto classificado no XII Concurso De Prosa – Prêmio Jornalista Omair Fagundes de Oliveira - promovido pela Associação de escritores de Bragança Paulista em outubro de 2007."
Durante muito tempo procurei entender a força da simplicidade. Sempre achei extraordinário que as coisas simples e despretensiosas tivessem mais força do que aquelas programadas e complexas.
E não é assim mesmo? Não há nada mais forte que uma simples palavra de ternura e carinho, ainda mais se for a resposta para um discurso ferrenho e venenoso.
Há pessoas que têm esse dom, da simplicidade pela suavidade, por exemplo, e conseguem trazer consigo, sem nenhum esforço, a palavra já impregnada desse algo mais especial.
Um dia pude ver esse dom em ação. Tive que ir até uma repartição pública para retirar uma guia de pagamento de imposto que estava atrasado e... baita programão, eihn! Acho que este é um dos poucos programas que pode ser considerado uma perfeita unanimidade, ou seja, ninguém quer fazer.
Bem, era final de tarde, tarde de verão. Havia sido um dia bastante quente e, é claro, era um dia ideal para se pegar filas e pagar taxas. O ambiente na repartição parecia ter acumulado todo o calor daquele dia. Além disso, as pessoas refletiam a vontade de estar ali, onde tudo era modorrento e pegajoso. Tudo ali transcorria em câmara lenta como o suor descendo pelo rosto da maioria daquelas pessoas.
A fila não andava e as pessoas conversavam assuntos previsíveis entre si. Falavam mal do governo e dos políticos, falavam mal da morosidade da fila, falavam mal dos funcionários públicos e voltavam a falar mal da fila. O comportamento da maioria das pessoas ali em nada ajudava a melhorar o ambiente já pesado pelo calor e pelo ar abafado e sem ventilação da repartição.
Na minha frente havia uma moça que se manteve alheia aos comentários dos demais integrantes da fila. Com certeza, ela também deve ter ouvido cada palavra dos demais, porém, assim como eu, decidiu não compartilhar nenhuma das opiniões ali expressadas. Ela era bem jovem, deveria ter uns 20 anos e estava usando um vestido floral bem ao estilo de sua idade.
- Próximo!!! - Era a atendente chamando pela moça. Sentada solenemente em sua cadeira, a atendente praticamente gritava ao anunciar o próximo na fila e fazia isso sem nem ao menos levantar os olhos dos papéis em sua mesa.
- Boa tarde! - Cumprimentou a moça suavemente.
Não sei se foi o tom de voz da moça ou o modo como ela falou mas o que quer que tenha sido, foi suficiente para que a atendente levantasse a cabeça e fitasse a moça com um ar de curiosidade e, por que não dizer, de surpresa também.
- Tudo bem? - A moça complementou. A pergunta não havia sido feita de forma automática, como acontece com a maioria dos cumprimentos ou perguntas feitas a quem nem sequer conhecemos.
Os sentimentos de interesse e preocupação que acompanharam a pergunta da moça foram suficientes para surpreender a atendente...e a mim também.
- O calor...está muito quente! Hoje estou me sentindo bastante cansada! - A atendente respondeu. - Não vejo a hora de ir para casa, me esticar no sofá...!
A atendente, uma senhora além dos 50 anos, falou com a moça misturando lamento e desabafo. Ao mesmo tempo, é claro, era também um pedido de ajuda.
A moça ouviu as palavras daquela senhora com um olhar paciente e confortador. Era como se ela já soubesse o que a atendente iria lhe dizer. Após alguns segundos de silêncio entre as duas, a moça disse:
- O dia já está acabando! Não vai demorar muito e a senhora poderá ir pra casa, tomar um bom banho e descansar.
Agora foi a vez de a atendente prestar atenção nas palavras da moça. Criou-se, então, uma relação diferente entre as duas e ninguém ali teria coragem de interromper aquela conversa.
Apesar de estar ouvindo cada uma das palavras trocadas entre as duas, não me sentia como se estivesse bisbilhotando ou algo do gênero. Eu sabia que estava compartilhando alguma coisa de especial.
Após um ou dois minutos, a moça, de repente, se levantou agradecendo:
- Muito obrigado pela sua ajuda!
- Eu é que agradeço! - Retrucou a atendente, de pé e com a mão estendida em direção à moça.
A moça aceitou o cumprimento e se despediu da senhora desejando-lhe boa sorte. Então, quando se virou para ir embora, seu olhar cruzou com o meu. Por um segundo nos tornamos cúmplices de tudo o que havia acontecido ali e naquele segundo de cumplicidade pude ver o que aquela moça havia conseguido apenas com seu jeito simples e natural.
Acompanhei-a com os olhos até que ganhasse a rua e em pensamento desejei-lhe boa sorte também.
Havia chegado a minha vez. Antes que a atendente me chamasse, contudo, decidi ir embora. O documento que eu tinha ido buscar já não era tão importante assim, pelo menos naquele dia quente de verão.
Percebi que eu precisava fazer alguma coisa muito mais importante e urgente. Eu precisava replicar o que havia acontecido ali.
Corri em casa, peguei minha esposa e meu filho e saímos para um passeio no parque, um simples e natural passeio no parque naquele final de tarde ensolarado.
Ao lado de minha esposa ainda tonta pela surpresa, deitado na grama e rindo das cambalhotas desajeitadas de meu filho no esplendor de seus oito anos, pensei no que havia acontecido horas antes e agradeci mais uma vez a moça da fila em seu vestido florido.
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2 comentários:
Chande, sempre escrevendo com muita propriedade, é o orgulho da família. Muito legal seu blog, espero que tenha muitos acessos.
"CHANDE" ...
Adorei !!!
Realmente algo extremamente reflexivo ...
"DONS" ... acredito piamente que sejam atribuídos às pessoas certas e com total capacidade de com eles e de alguma maneira nos mostrar lições de vida e muito aprendizado; capazes de provocar incríveis mudanças cotidianas (pra melhor sempre)...
Interessante o "ATO" desprovido de qualquer intenção que não a própria sutileza, educação e naturalidade de expressão. Ato esse que proporcionou à pessoa totalmente absorvida (por seus "desencantos" com o trabalho praticamente "mecânico" e sem qualquer vínculo direto e pessoal, transformava-o ainda mais em algo totalmente frio, aborrecedor, amargo e obrigatório) enxergar o "calor" de uma palavra; um gesto; uma palavra de conforto e até uma preocupação com tudo que ali ocorria ...
**** REFLEXÃO ****
Uma outra pessoa também dotada dos mesmos conceitos, pôde compreender facilmente o que ali acontecia e sem qualquer dúvida exitou ... em sair rapidamente dali e ir em busca daquilo que de fato lhe fazia FELIZ !!! Sua família unida num momento de lazer desprovido de qualquer compromisso e aproveitando para apreciar os atos propícios à idade, o que aquele ser tão amado era capaz de fazer .
Estar grato por ter essa capacidade
de aproveitar cada momento, cada segundo de sua VIDA ... ao máximo !
(Carpem Die)
***** Querido,você como sempre surpreendente !!!
Parabéns ...
Realmente, uma grande lição de vida e que servirá como parâmetro à muitas pessoas que puderem ler e entender o real "conceito", "intuito" dessa mensagem (através do texto você passa de maneira clara e sublime), mudarem algumas coisinhas que possam vir a estar tomando o percurso errado e a valorizar cada vez mais a "VIDA" !!!
Beijos...
SILVINHA
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