sábado, 10 de maio de 2008

Imposto Atrasado

"Conto classificado no XII Concurso De Prosa – Prêmio Jornalista Omair Fagundes de Oliveira - promovido pela Associação de escritores de Bragança Paulista em outubro de 2007."


Durante muito tempo procurei entender a força da simplicidade. Sempre achei extraordinário que as coisas simples e despretensiosas tivessem mais força do que aquelas programadas e complexas.

E não é assim mesmo? Não há nada mais forte que uma simples palavra de ternura e carinho, ainda mais se for a resposta para um discurso ferrenho e venenoso.

Há pessoas que têm esse dom, da simplicidade pela suavidade, por exemplo, e conseguem trazer consigo, sem nenhum esforço, a palavra já impregnada desse algo mais especial.

Um dia pude ver esse dom em ação. Tive que ir até uma repartição pública para retirar uma guia de pagamento de imposto que estava atrasado e... baita programão, eihn! Acho que este é um dos poucos programas que pode ser considerado uma perfeita unanimidade, ou seja, ninguém quer fazer.

Bem, era final de tarde, tarde de verão. Havia sido um dia bastante quente e, é claro, era um dia ideal para se pegar filas e pagar taxas. O ambiente na repartição parecia ter acumulado todo o calor daquele dia. Além disso, as pessoas refletiam a vontade de estar ali, onde tudo era modorrento e pegajoso. Tudo ali transcorria em câmara lenta como o suor descendo pelo rosto da maioria daquelas pessoas.

A fila não andava e as pessoas conversavam assuntos previsíveis entre si. Falavam mal do governo e dos políticos, falavam mal da morosidade da fila, falavam mal dos funcionários públicos e voltavam a falar mal da fila. O comportamento da maioria das pessoas ali em nada ajudava a melhorar o ambiente já pesado pelo calor e pelo ar abafado e sem ventilação da repartição.

Na minha frente havia uma moça que se manteve alheia aos comentários dos demais integrantes da fila. Com certeza, ela também deve ter ouvido cada palavra dos demais, porém, assim como eu, decidiu não compartilhar nenhuma das opiniões ali expressadas. Ela era bem jovem, deveria ter uns 20 anos e estava usando um vestido floral bem ao estilo de sua idade.

- Próximo!!! - Era a atendente chamando pela moça. Sentada solenemente em sua cadeira, a atendente praticamente gritava ao anunciar o próximo na fila e fazia isso sem nem ao menos levantar os olhos dos papéis em sua mesa.

- Boa tarde! - Cumprimentou a moça suavemente.

Não sei se foi o tom de voz da moça ou o modo como ela falou mas o que quer que tenha sido, foi suficiente para que a atendente levantasse a cabeça e fitasse a moça com um ar de curiosidade e, por que não dizer, de surpresa também.

- Tudo bem? - A moça complementou. A pergunta não havia sido feita de forma automática, como acontece com a maioria dos cumprimentos ou perguntas feitas a quem nem sequer conhecemos.

Os sentimentos de interesse e preocupação que acompanharam a pergunta da moça foram suficientes para surpreender a atendente...e a mim também.

- O calor...está muito quente! Hoje estou me sentindo bastante cansada! - A atendente respondeu. - Não vejo a hora de ir para casa, me esticar no sofá...!

A atendente, uma senhora além dos 50 anos, falou com a moça misturando lamento e desabafo. Ao mesmo tempo, é claro, era também um pedido de ajuda.

A moça ouviu as palavras daquela senhora com um olhar paciente e confortador. Era como se ela já soubesse o que a atendente iria lhe dizer. Após alguns segundos de silêncio entre as duas, a moça disse:

- O dia já está acabando! Não vai demorar muito e a senhora poderá ir pra casa, tomar um bom banho e descansar.

Agora foi a vez de a atendente prestar atenção nas palavras da moça. Criou-se, então, uma relação diferente entre as duas e ninguém ali teria coragem de interromper aquela conversa.

Apesar de estar ouvindo cada uma das palavras trocadas entre as duas, não me sentia como se estivesse bisbilhotando ou algo do gênero. Eu sabia que estava compartilhando alguma coisa de especial.

Após um ou dois minutos, a moça, de repente, se levantou agradecendo:

- Muito obrigado pela sua ajuda!

- Eu é que agradeço! - Retrucou a atendente, de pé e com a mão estendida em direção à moça.

A moça aceitou o cumprimento e se despediu da senhora desejando-lhe boa sorte. Então, quando se virou para ir embora, seu olhar cruzou com o meu. Por um segundo nos tornamos cúmplices de tudo o que havia acontecido ali e naquele segundo de cumplicidade pude ver o que aquela moça havia conseguido apenas com seu jeito simples e natural.

Acompanhei-a com os olhos até que ganhasse a rua e em pensamento desejei-lhe boa sorte também.

Havia chegado a minha vez. Antes que a atendente me chamasse, contudo, decidi ir embora. O documento que eu tinha ido buscar já não era tão importante assim, pelo menos naquele dia quente de verão.

Percebi que eu precisava fazer alguma coisa muito mais importante e urgente. Eu precisava replicar o que havia acontecido ali.

Corri em casa, peguei minha esposa e meu filho e saímos para um passeio no parque, um simples e natural passeio no parque naquele final de tarde ensolarado.

Ao lado de minha esposa ainda tonta pela surpresa, deitado na grama e rindo das cambalhotas desajeitadas de meu filho no esplendor de seus oito anos, pensei no que havia acontecido horas antes e agradeci mais uma vez a moça da fila em seu vestido florido.

domingo, 4 de maio de 2008

A Vida não costuma avisar da mudança que virá

"Conto classificado no Concurso Literário “Contos para Viagem” promovido pela Editora Arte Literária de São Paulo em dezembro de 2006."


É engraçado como as coisas mudam quando a gente menos espera.
Hoje, por exemplo, o dia tinha tudo para ser 100% igual a todos os outros e acabou sendo maravilhosamente diferente!
Trabalho em São Paulo e te digo uma coisa: - Trabalhar em São Paulo não é fácil! Todo dia tem trânsito e ônibus lotado, todo dia é a mesma coisa!
Para variar, chequei atrasado ao trabalho e, também para variar, levei outra bronca do patrão. O dia já começou, digamos: - Beleza!
À noite, depois da aula no supletivo, peguei o ônibus para casa. Com certeza eu não iria agüentar ficar acordado a viagem toda. Hoje eu estava todo moído.
Antes de apoiar a cabeça no banco e cair no sono vi quando aquela mulher entrou no ônibus. Ela subiu os degraus bem devagar, aparentando estar bem mais cansada do que qualquer outra pessoa ali. Ela devia ter uns 35 anos.
Pagou a passagem sem olhar para o cobrador e procurou o primeiro banco vazio que pudesse ocupar. Adivinhou onde ela se sentou? Sim, ela se sentou do meu lado.
Observei-a enquanto caminhava na minha direção. Andava com cuidado, com tanto cuidado que parecia mover-se em câmera lenta. Aliás, todos os seus gestos eram assim, em câmera lenta. Reparei no lenço que escondia seus cabelos.
Assim que pediu licença para se sentar, tirou o lenço da cabeça e revelou seus cabelos curtíssimos. Seus cabelos eram curtos demais, tão curtos que me fizeram lembrar de uma tia minha que havia feito tratamento contra o câncer. Lembrei-me das sessões de quimioterapia da minha tia e como ela voltava acabada depois de cada sessão. Depois de um tempo ela também teve que cortar seus cabelos bem curtinho.
Enquanto a moça se sentava ao meu lado prometi a mim mesmo que não iria encará-la, mas não pude evitar quando a ouvi gemer baixinho.
- Você está bem? - Perguntei. - Precisa de alguma coisa?
Ela virou-se para mim e disse que estava tudo bem, que não era necessário que eu me preocupasse.
Sua voz saiu devagar, com uma leve pausa entre uma palavra e outra, mas toda cheia de ternura.
Abri minha mochila e ofereci a garrafa de água que havia comprado pouco antes de entrar no ônibus.
- Aceite! Ela ainda está fechada! - Insisti. - E se eu tomar não vou mais poder te oferecer.
Mais uma vez ela olhou para mim.
- Nossa! Como ela era linda! - Pensei comigo.
Ela, então, abriu um sorriso lindo, maravilhoso e acabou aceitando a garrafinha de água.
- Posso te falar uma coisa? - Perguntei. - Você ficou super bem com esse corte de cabelo.
Ela sorriu mais uma vez e disse:
- Para falar a verdade, eu também achei!
Acabamos rindo juntos.
Mais alguns minutos e já estávamos conversando como se fôssemos velhos conhecidos.
O tempo passava e o ônibus continuava correndo.
Não me sentia mais cansado e ela, com certeza, também estava diferente de quando entrou no ônibus.
Continuamos conversando e nos divertindo enquanto o ônibus avançava.
Mais alguns minutos e foi a vez dela me perguntar:
- Posso te falar uma coisa? Você tem que prometer que não vai dar risada!
Prometi que não iria rir dela, fosse o que fosse, mas já estava rindo quando respondi.
- Já faz alguns minutos que o ponto da minha casa passou! - Ela disse com a maior naturalidade do mundo e com aquele sorriso encantador nos lábios.
Segurei sua mão e falei:
- Tudo bem! Não conte pra ninguém, mas eu acho que o meu ponto passou antes do teu!
Levantamos e nos preparamos para descer.
Não tinha como saber, mas queria poder acompanhá-la todos os outros dias de sua vida.
O ônibus parou e descemos rindo, um buscando apoio nos braços do outro.
Quem olhasse, pensaria: - Com certeza, estavam bebendo!
Quem olhasse e pensasse dessa maneira talvez não estivesse tão errado assim. A partir daquela dia ela seria meu vício e dela eu iria querer me embriagar todos os dias.